Já te questionaste porquê que, desde há muito tempo, a quantidade de roupa nova que aparece nas lojas aumentou e o preço das mesmas tem vindo a descer cada vez mais? Pensa para além do facto de parecer bom para o teu bolso e para o teu estilo…

A resposta é simples: a produção de textéis foi terceirizada (transferida para locais de Terceiro Mundo), e gerada em massa, perdendo-se o respeito pela saúde, pelas pessoas e pelo ambiente, dando ínicio a um movimento massivo a que chamamos Fast Fashion ou Moda Rápida. Traduz-se pelo mais recente conceito adoptado por todas as grandes marcas e corporativas de produção de vestuário, exatamente o que o nome indica: moda rápida, e moda considerada descartável. Exemplos disso são marcas desde H&M, Zara, Bershka, Forever 21, Topshop, GAP, Fashion Nova, Stradivarius, Primark, Mango, Victoria’s Secret, Pretty Little Thing, Shein, Nike, Adidas, entre tantas outras…

Significa isto que há gente a ser explorada, desde mulheres a crianças, em países terceiros para tu poderes comprar essa roupa barata que escolhes constantemente e que por vezes não dás valor e que, maior parte das vezes, nem precisas. Sentes-te bem com ela vestida, sabendo isto?

Porque te passa ao lado? Eu sei que vivemos tempos difíceis e a roupa é um bem necessário mas há solução para este dilema, sabias? Compra menos e melhor. Compra marcas éticas que saibas que têm qualidade a todos os níveis, e cuja produção não inclua maldade nem injustiça. Se pensares bem, podes estar a passar momentos financeiramente desafiantes mas há sempre gente pior que tu. Acredita em mim. Gente que ganha menos do que 2€ ao dia e que trabalham uma vida inteira sob condições deploráveis e sem medidas de segurança para poder dar pão e água aos seus filhos e sobreviver em vez de viver. Nós sabemos que isto é real. Então, porque não prestamos atenção??

A verdade é que a culpa é das grandes marcas que te endrominam, aliciam e iludem o tempo inteiro. Somos humanos e caímos nisso porque queremos ser felizes e sentir-nos bem e é essa a ideia que nos é vendida: que se compramos isto ou aquilo, seremos!

Contudo, temos o poder de nos educarmos e nos tornarmos mais inteligentes, informados e conscientes, logo, tomarmos melhores decisões, fazermos melhores escolhas e adoptarmos mudanças! Nós somos capazes disso! Somos adaptáveis e poderosos, se assim o quisermos!

Como Tudo Começou

Fonte: Whole People

Até aos anos 50, a roupa era praticamente feita à mão, por medida e por necessidade. Efetivamente, o conceito de roupa por gosto e vaidade, estreou-se apenas na década de 60: uma geração rejuvenescida, com apetite guloso pela liberdade de expressão, criada no pico de prosperidade e abundância do século, o consumismo disparou e nasceu o frenesim das tendências da moda.

Este foi o período em que a indústria de vestuário e têxtil começou a ver-se aflita para acompanhar a procura avassaladora e a disputa pela melhor oferta, tendo-se sentido pressionada a externalizar o seu fabrico para países de mão-de-obra barata.

Comparativamente há anos atrás, em que se produziam coleções localmente e sazonalmente, de acordo com a estação do ano, agora saem novas coleções de roupa a cada semana, produzindo-se um total de 52 coleções, em vez de 4. Quanto mais o ser humano vê e não tem, mais quer ver e mais quer ter. Mas aí se encontra a nossa janela para a mudança. Podemos escolher controlar o que compramos, e como e a quem compramos e gerir o que já temos!

O Desastre

Em 2013, um desabamento de um prédio em Savar, no Bangladesh, matou cerca de 1127 pessoas, devido às miseráveis condições de segurança em que se encontrava o edifício, mesmo após vários trabalhadores terem alertado para o estado em que o mesmo de encontrava. Para além de não ter sido prestada a devida atenção, as costureiras foram forçadas a ir trabalhar. O local combinava 8 pisos e abrigava fábricas de fast fashion que produziam roupas a baixo custo, que tanto compramos e queremos.

O mais escandaloso de tudo isto foi que, enquanto o número de mortos aumentava, também os lucros gerados! O ano seguinte ao desastre de Rana Plaza foi o ano mais rentável do sector téxtil, de todos os tempos.

Pergunta-te: “Isto está correcto?”

O pior é que pouco ou nada mudou, desde então e desastres como este continuam a acontecer debaixo dos olhos do mundo. O ciclo vicioso continua e parece não haver previsão para parar. Desde desabamentos, colapsos e incêndios, até de maus tratos aos trabalhadores se estes se atreverem a pedir melhores condições de trabalho ao empregador.

O Bangladesh é o 2º maior exportador de vestuário a seguir à China. A indústria da moda é multimilionária mas para estes trabalhadores é pobreza extrema e risco de vida. Como é que estas empresas não conseguem garantir a segurança e qualidade de vida dos seus milhões de trabalhadores, quando geram lucros enormes? Conseguem, mas não querem. Ainda afirmam que praticam o bem pelo simples facto de gerarem emprego.

Todos nós, quem produz, quem cria, quem paga e quem lucra à conta disto, devia assumir responsabilidade e peso por todas as mortes que acontecem. Todos escolhemos não ligar e não querer saber, bem como participar. Temos culpa da pobreza e da morte destes seres humanos. Estamos a falar de direitos básicos de vida que deviam ser comuns a todos e que lhes é completamente negado.

A Origem Dos Materiais: A Agricultura

Women busy picking up cotton in Matiari, Sindh. Fonte: Dawn.com

Com a intensificação da produção de vestuário, o material com o qual é feito, também teve de se adaptar ao ritmo alucinante.

A fibra de algodão é responsável pela maioria das roupas que são feitas. Outrora a antiga agricultura que existia em harmonia com o meio ambiente, é agora considerada também uma gigantesca e intensa fábrica.

O que foi criado foi esta prática geral de tratar milhões de hectares da mesma forma, colocando doses enormes de produtos químicos. A natureza tende a curar-se a ela própria em pequenas áreas, mas quando há uma abordagem ampla e abrangente, não sabemos o impacto que isso realmente tem nos nossos solos e o impacto que tem nas pessoas da comunidade e posteriormente no consumidor que veste a roupa que daí foi feita. Onde está o custo disso?

Carl Pepper, Agricultor, Texas, EUA

Para além disto, as plantas passaram a ser geneticamente modificadas criando sementes, de maneira às empresas terem ainda mais controlo na produção e fazendo pobres agricultores locais dependerem das mesmas, a um preço excessivamente alto. Consequentemente, ao se verem obrigados ao uso de pesticidas e fertilizantes químicos, quanto mais usam, mais têm de usar.

Gerou-se uma contaminação desenfreada, cujos efeitos se verificam não só directamente, como indirectamente. Não só para o consumidor final mas principalmente para o produtor e comunidades locais. Desde defeitos congénitos, cancros e doenças mentais.

HÁ CONSEQUÊNCIAS GRAVES PROVENIENTES DA TOXICIDADE.

Pessoas pobres como em Punjab, na Índia, não conseguem ter possibilidades financeiras para sequer receberem tratamento para lidar com estes resultados e efeitos.

Para as grandes empresas, é só ganho. Tens cancro e doenças? Há indústrias que lucram com isso.

Para o povo e para a natureza, é só perda.

Nós últimos 16 anos, houveram mais de 250000 suicídios de agricultores na Índia por se verem afundados em dívidas às empresas e seus agentes, e lhes verem as terras serem retiradas, à soma de assistirem os seus filhos e família doentes e nada poderem fazer.

Impacto Em Nós, Consumidores e Clientes

Várias pesquisas demonstram o efeito crescente que a moda rápida tem em nós, os que compramos os produtos finais.

Tim Kasser (PHD e professor de psicologia), refere que, 20 anos e centenas de estudos depois, quanto mais as pessoas se concentram nestes valores materialistas, e quanto mais o dinheiro, imagem, estatuto e posses importam, menos felizes estão, mais deprimidos estão e mais ansiosos estão. Se isto ainda é novidade para ti, é porque não tens estado atento.

Os anúncios e publicidade das próprias marcas e empresas sugerem precisamente o contrário: que o materialismo e busca de bens e posses são a resposta para a nossa felicidade e bem-estar. Bem, não são! Este é o efeito que podem ter em nós, mesmo que erradamente. Não acredites em toda a publicidade que vês, pois cada vez mais é feita para te enganar. Sendo a competição tanta, têm de fazer de tudo para vender.

Tu, consumidor e cliente, nunca estarás satisfeito, simplesmente porque bens materiais NÃO SÃO a tua fonte de felicidade! São a tua distração, e também meio de contribuires cegamente para o mal que está a ser feito por trás daquilo que compras.

Mas isso pode acabar. Apesar de te sentires preso e que não tens outra opção a não ser esta, estás errado. Tens e podes ter mais controlo na tua vida e ajudar mais do que pensas.

Tu, que não ganhas menos de 2€ por dia, nem vives na pobreza, nem em risco de vida constante, num péssimo e degradado ambiente, e com filhos doentes ou a serem explorados, PODES E DEVES QUERER FAZER E SER MELHOR! Tens mais escolha do que eles.

Como Podes Agir

Os problemas da tua vida não se resolvem com o consumo.

Fonte: Sanvt.com

Exemplos que podes evitar e situações que podes controlar:

  • Deixar de prestar atenção a Youtubers ou Influencers no mundo digital que produzam conteúdo à base de reviews (avaliações) e hauls (demonstrações de aquisições) de produtos e compras que fizeram, cujo objectivo, para além de criar estatuto, é mostrar as posses ou influenciar-te a quereres tê-las;
  • Saldos, Black Fridays e Promoções: foca-te no que realmente precisas e não no que achas que precisas. A não ser que procures por um determinado item há bastante tempo que realmente necessitas, de nada te irá adiantar andares a ver montras e lojas e a ver os descontos, e só comprares porque é giro e o preço te parece demasiado barato. Lembra-te que já tens tudo o que precisas, e não tens de sentir necessidade de te mostrar de uma certa maneira. Ninguém vai gostar verdadeiramente mais de ti pelo que tens ou pelo que vestes;
  • Presentes, aniversários e natal: sei que é incrível receber (e também oferecer), prendas nas datas especiais, mas a minha opinião é que, a não ser algo que seja útil e necessário, não irá passar de desperdício e futilidade. Transmite ás pessoas que te são próximas aquilo que desejas, para que sejam evitadas compras excessivas e em vão só porque sentem a necessidade de oferecer alguma coisa. Sei que a sensação de surpresa pode ser boa, mas há alturas e outras coisas na vida que valem bem mais a pena essa sensação e das quais não te esquecerás com tanta facilidade, como surpreender com o prato preferido, com amor e mensagens de carinho;
  • Opta por comprar marcas éticas e sustentáveis: apesar de muitas destas marcas de moda rápida já possuirem linhas e coleções que se afirmam eco-friendly, tendem a enganar, fazendo o consumidor pensar que estão e fazer uma grande coisa, quando na verdade a mudança não é assim tão significante. É melhor que nada, sim, no entanto, e como diz a Catarina Barreiros (rainha da sustentabilidade) “está longe de ser considerado sustentável”. A melhor solução de todas será, com certeza, comprar em 2ªmão, cujos artigos já existem e podem ser usados de novo. No entanto, eis alguns exemplos de boas marcas que são realmente consideradas éticas e sustentáveis:
  • Relembra o tempo que acabamos todos de viver com esta pandemia, na quarentena e com o confinamento. Tempo este, em que pouco ou nada importou a não ser a segurança e saúde de nós próprios e dos nossos. Viver em risco com a doença, de morrer com a mesma, de perder o emprego e não ter como nos sustentarmos, é o dia-a-dia das pessoas de Terceiro Mundo que fazem as roupas que optamos comprar.

Conclusão

Hoje compramos cerca de 400% mais do que nas últimas duas décadas. A maneira como consumimos mudou tanto e tão rápido, que poucas pessoas realmente pararam para compreender a origem deste novo modelo de indústrias e o impacto que ele teve e tem. A moda é a 2ª indústria mais poluente, logo a seguir à do petróleo.

Os aterros estão repletos de roupa e tecidos que as pessoas deitam fora e a quantidade têm vindo a aumentar exponencialmente. A moda nunca deveria ter sido considerada descartável. Principalmente nos tempos em que vivemos de sufoco do planeta e de ameaça de espécies. A roupa demora cerca de 200 anos a decompor e liberta gases nocivos para a atmosfera que respiramos.

Tudo isto faz-te algum sentido?Imaginas o impacto que tudo isto tem? Porque escolhemos negar estes acontecimentos e factos ao optarmos consumir excessivamente roupas fabricadas com sangue, suor e lágrimas, injustamente e que resultam em poluição? Qual o verdadeiro benefício disto? Teres um armário a transbordar? Sentes-te feliz e satisfeito com isso de maneira a pensares que toda esta maldade e destruição vale a pena?

Fast Fashion True Cost

As grandes marcas encomendam ao Bangladesh 1,5 milhões de calças por 0,30€ ou 0,50€ cada par. Ao fazer-nos comprar por 5€ ou 20€ a peça e fazer-nos pensar barato, estão a fazer-nos acreditar que somos ricos porque podemos comprar muitas coisas, quando na verdade, estão a tornar-nos a todos mais pobres.

A única pessoa que realmente lucra e fica rica é o proprietário da marca de Fast Fashion.

Livia Firth, Directora Criativa da ECO-AGE

O meu intuito com este artigo é esclarecer-te e fazer-te passar informação importante, que já existe, apesar de muitos de nós não sabermos e outros tantos escolherem não querer saber.

Quando estarás pronto para fazer parte da mudança para uma vida melhor?


Este artigo teve apoio do documentário The True Cost, que aconselho vivamente a assistires.

Obrigada por leres e abrires os teus olhos à realidade!

Até breve

2 comentários em “Fast Fashion: Escolhes Ser Desinformado, Desinteressado ou Desperto?

  1. Isto eu já implementei há mais o menos 5anos. Fui uma mudança lenta. Primeiro deixei de comprar roupa barrata que sai caro. Segundo fiz um boicote a certas marcas. Depois prestei mas atenção a composição das peças. Prefiro comprar peças mais caras de marque algumas mais que tenho a anos, por isso acabou por comprar pouco.o ano passado comecei o armário cápsula. Este ano decidi começar a fabricar o meu guarda roupa, com tricot, crochê, costura…como antigamente. Mas com lãs o algodão, linho portugueses. Matéria prima pura.
    Tingir a minha lã e tessidos com plantas.
    Ainda só estou na fase do tricô e crochê…nos primeiros passos do tingimento. Mais com tempo e dedicação vamos lá.
    Ler o teu blog é um verdadeiro prazer. Continua . Beijos

    1. Fico tão mas tão feliz com esses passos que estás a dar! Porque é isso o que basta…dar passos pequenos mas conscientes! Muito obrigada pelo teu esforço porque compensa o coração e compensa o mundo. Os resultados só vê quem entende e tu já entendes e isso é mágico! Agradeço-te com todo o meu ser por fazeres parte daqueles que querem ser e fazer melhor! Que orgulho.
      Até breve!

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