No outro dia estava à mesa a jantar e aparece na TV uma notícia acerca do Harry Styles ser o primeiro homem, e de vestido, na capa da revista Vogue…

Silêncio…

Achei que ia passar sem nenhum comentário. Errada estava.

Logo de seguida inicia-se toda uma conversa:
– “Se tem algum jeito! De vestido?!”

“Os vestidos são para as mulheres! É ou não é?”
Mantive-me calada, pois geralmente exalto-me neste tipo de tópico com este tipo de comentários, e havia pessoas idosas à mesa. Mas não aguentei… Comecei suavemente:
– “Qual é o problema? Mas quem é que disse e fez regra que o homem não podia usar vestido e a mulher podia? Qual é a diferença mesmo?”
Respondem-me:
– “Oh Ana não faz sentido! Não tem jeito nenhum…” e ria-se em tom de gozo.
Pois para mim não havia motivo para rir. Quanto a determinados assuntos não há:
– “Só pensas assim porque foste educado dessa forma com a sociedade a dizer-te que tem de ser assim.”
Diz o meu avô:
– “Agora já pouco importa mas antigamente era muito mal visto. Mas se fosse um padre de vestido comprido já ninguém dizia nada”.
Lá está:
– “Porquê que é para uns e não é para outros? Quem fez essas regras e onde é que estão escritas?”
E entretanto começa todo um outro debate:
– “Oh é como o casamento homossexual… Não faz sentido! Mas afinal como é que nascem os filhos?! Só é possível entre um homem e uma mulher! Não faz sentido para a criança ser criada por dois homens…”
Obviamente desisti ali. Fui arrumar a cozinha. Dei graças por ter crescido a ser educada no mesmo registo, mas ter tido iluminação, consciência e abertura durante o meu crescimento para hoje ser como sou e pensar como penso. Quem não quer mudar e evoluir nem ouve outros pontos de vista, morrerá assim. Por um lado tenho pena, por outro creio que também passa pelo respeito.

Isto para vos introduzir no contexto do artigo de hoje. Artigo este, que pode estar sujeito a múltiplas interpretações e opiniões, e que pode originar controvérsia. Mas a única interpretação que me importa e que é o foco deste artigo, é a do amor.

Imaginem o que é para uma criança rapaz, que é livre e ingénua, querer usar um vestido, sem lhe dar nenhuma conotação negativa e simplesmente com a intenção de se sentir bem e bonito, e ouvir em tom de reprimenda, que não pode usar vestidos porque “os vestidos são para as meninas”. Tal como uma criança rapariga ouve montes de outras coisas do género. Ou não pode vestido, ou maquilhagem ou cor-de-rosa ou brincar com bonecas, ou não pode chorar porque “os homens não choram”, ou “faz-te homem!” sempre que mostram fraqueza, ou que “homem quer-se forte, robusto e duro”, etc… Porquê? Porquê esta formatação que só castra? Para quê?

O padrão de que, um “homem forte” é aquele que mantém o peito erguido com as emoções sob controle, apesar de se sentir sozinho e com medo, está a destruir o mundo.

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Com este artigo não pretendo, de forma alguma desculpar ou minimizar os actos cruéis e obscenos de muitos homens, nem comparar a tudo o que a mulher já passou, desde o início dos tempos. Pretendo falar abertamente sem apontar dedos ou ganhar competições. Creio que falar do homem, e desconstruí-lo, é crucial e necessário, uma vez que o que procuramos é igualdade de género. Empoderamento consciente e verdadeiro. Empoderamento que não deixa margem para intolerância, violência, raiva ou frustração, pois auto-estima e amor-próprio suficientes abundam.

Como todo este comportamento surgiu

Inês Gaya citou Mirella Faur, através de “Círculos Sagrados para Mulheres Contemporâneas”, no seu livro “Sagrado Feminino”:

Foi a transição da sociedade de coleta para a sociedade de caça, e a conquista de territórios, que levou à criação de uma nova estrutura social, em que prevalecia a força física e a habilidade masculina para tirar a vida, em oposição a gerar e cuidar dela, características femininas. Os homens começaram a descobrir que também tinham um papel na procriação, o que começou a gerar uma mudança na mentalidade e postura masculinas. O antigo respeito masculino pelo ato de dar a vida, que os levava a reverenciar a Deusa Mãe, foi substituído pelo orgulho de serem cobradores, pelo poder, pela força e pela dominação do mais forte. (…)

A institucionalização da guerra, a hierarquia patriarcal, do sistema de castas e da apropriação de todos os bens pelos homens, levou à subordinação das mulheres, à escravidão e muitas mudanças sociais, culturais e espirituais. E assim se iniciou um longo processo de destronar a Deusa com o intuito de dar sustento a uma nova cultura patriarcal e guerreira. (…)

Inês diz ainda que o Patriarcado trouxe uma cultura baseada no medo, na culpa e na punição e estas 3 emoções, ainda hoje, são responsáveis pelo nosso “sono profundo”.

Isto começou há muitos anos atrás, mas ainda continua. Reprime-se a mulher por se achar ser um ser inferior, (hoje duma forma tão intrínseca que nem se nota que se está a fazer), e por isso, impede-se a comparação do homem à mesma, uma vez crendo que o homem é superior. No entanto, isto tem o efeito contrário, ainda que não se pense. Impede, restringe, castra! Homem também tem poder feminino, e mulher também tem poder masculino, e um sem o outro não são a sua totalidade. Perceber isto pode ser transformador.

Tal como as mulheres, os homens, maior parte das vezes, nem têm noção do mal que estes comportamentos lhes fazem a eles próprios e aos homens que os rodeiam, incluindo os filhos e netos, e os que ainda estão por vir… É uma corrente que, ainda bem, já tem vindo a ser quebrada. Estes comportamentos carregados de crenças, cultura, educação retrógrada, hábitos e costumes e religião, prejudicam em vez de beneficiarem. Em cima deles são construídos mais medos, traumas, receios, baixa auto estima e falta de confiança, e muitas vezes maldade… E acontece bullying. E depois não o entendem? E violência. E depois não sabem de onde vem? Nenhum homem nasce a querer ser violento ou abusador. Nem homem nem mulher nem ninguém. Mas se crescer a ser ensinado dessa forma, o resultado poderá ser esse, pois é a realidade que conhece. Qual achas que será o resultado da formatação e castração que se recebe, especialmente se acontece aquando criança? Será, com muita probabilidade, um crescimento limitado, em que a pessoa não exercitará na sua mente e no seu ser, a ideia de que pode ser quem ela quiser e que tem potencial para tudo, se assim o desejar. Depois espera-se e exige-se uma postura contrária e perfeita, ralhando quando as crianças são maldosas umas para as outras, ou mesmo quando em adultos não correspondem às expectativas. Não dá. Nem mulher, nem homem, nem ninguém, pode ser a melhor e mais completa versão de si mesmo, se não tiver terreno ou margem, nem prática para evoluir.

Outro factor, que considero de extrema importância referir, é a falta de afecto por parte de um pai ou figura paterna, por exemplo, para com um filho. Crescer com ausência de afecto provoca danos por vezes irreversíveis num homem, ainda que não se note logo. Com o tempo, só o tornará frio, vazio ou inseguro, e por vezes, incapaz de dar afecto a outros pela sua vida fora. Enrijecer alguém não passa por cortar com as emoções, sentimentos e amor, por muito que assim ainda se pense. Pelo contrário. E não entendo como é que isto ainda não se compreende. Estragos feitos na infância e juventude, são muitíssimo difíceis de ultrapassar e resolver no futuro. Requerem muito trabalho, empenho, abertura e esforço e só alguns têm a sorte da vida lhes mostrar que é possível.

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Os homens cisgéneros (condição da pessoa cuja identidade de género corresponde ao género que lhe foi atribuído no nascimento) podem ter grandes bloqueios para se mostrarem afáveis, vulneráveis ​​e íntimos com outros homens. Há a crença de que, se o fizerem, serão “menos homens”, o que também é causa de muita vergonha e repressão emocional na comunidade de homens cisgéneros. A masculinidade tóxica é um efeito que advém desse processo de desconexão do eu autêntico em todos os seus aspectos.

Vulnerabilidade e suavidade não têm género. São características humanas que todos nós temos dentro de nós.

Maxinne BjörkVulnerable Masculinity – for CuratedByGirls (traduzido)

(Segue o maravilhoso trabalho de fotografia e sensibilização de Maxinne Björk no instagram aqui).

Questionei ao público que se sentisse inserido no género masculino, num inquérito livre e anónimo, o seguinte:

“Quais consideras que são as principais diferenças entre um homem e uma mulher?”

O Ricardo (nome fictício) respondeu: “(…) Acho que o problema não são as diferenças entre homem e mulher mas sim a forma como essas diferenças são interpretadas e o significado que fomos “ensinados” a dar-lhes.”

Ser mulher, e ser homem, é pura magia e pura energia fluindo no mesmo conceito, mas em ondas únicas e distintas, como cada corpo e cada mente são. A igualdade existe. Ela é a Terra. Nós é que decidimos construir prédios e mais prédios em cima dela, entupindo-a.
Entendes agora o que temos de fazer? Desconstruir para poder ver de novo o valor, o amor e a vida, tal como eles são.

É necessário apercebermo-nos, consciencializarmo-nos e tomarmos as rédeas de nós próprios, de quem queremos ser, e da mensagem que queremos passar.
Gritamos por liberdade e aceitação… Porque não começamos por reivindica-la em nós?

Ora, considero a educação o pilar fundamental para a construção da igualdade. Começa a nível pessoal, quando começamos a tomar consciência de que existe mais para além daquilo que conhecemos, e quando baseamos as nossas atitudes, pensamentos, palavras e ações no amor e no respeito.

O ensino estagnou. A religião é estanque (principalmente a predominante religião católica). A família, no geral, é composta por indivíduos únicos, cada um com personalidades diferentes, e cada um com crenças, ideais, educação e por vezes religião, diferentes entre si. Os media (que são virados para o consumo), a publicidade e a indústria pornográfica, tiveram e têm um papel pesado e valorizado, injectando-nos com crenças sobre como os homens fortes e desejáveis ​​devem andar, falar, vestir, fumar, beber, lutar e fazer sexo…
Levando-nos a uma realidade onde as emoções humanas mais naturais são suprimidas em massa, e em que a maioria de nós raramente viu um homem a chorar, mas com certeza o viu a matar em filmes, videojogos e nas notícias…

Não é fácil. Ninguém disse que o era. Ou se disse, estava confuso ou ainda tinha muito para aprender. A mudança é difícil e é gradual. Mas é possível! Temos é de começar por algum lado.

Outra questão que foi colocada no inquérito que fiz, foi:

“O que achas que deve mudar na nossa sociedade?”

À qual o Bruno (nome fictício) respondeu: “Podia ficar agora horas a enumerar o que podia ou devia mudar na sociedade, mas para não me alongar penso que o ponto chave de qualquer sociedade na sua base é o respeito pelo próximo, compreensão e civismo, se tudo isso fosse seguido por todos á risca viveríamos num mundo melhor. Para máxima liberdade, máxima responsabilidade”, e o Ricardo (nome fictício): “Acho que devemos ser muito mais empáticos e muito menos julgadores. Temos de aprender a ouvir mais e a falar melhor. Temos de saber que a nossa verdade pode não ser a verdade do outro(a). Perceber que não vemos a relidade como ela é, mas sim como nós somos. Por isso, pormo-nos no lugar dos outros e sermos mais compreensivos ajudaria a mudar para melhor.”

Vulnerable Masculinity. Fonte: Maxinne Bjork

Interrogando-os acerca do que acham que podem fazer para melhorarem como pessoas, e para terem um melhor papel na sociedade, eles respondem:

“Partilhar a minha visão“;

“Analisar tudo de diferentes pontos de vista”;

“Posso começar por ter noção de que sozinhos não somos ninguém. Somos seres sociais. Precisamos uns dos outros. E acho que ao ter noção disso, estamos um passo mais perto de sermos melhores connosco e com os outros. Aprender a relativizar os “problemas”, ser maior que o que seja que me incomoda. Ter a consciência tranquila. Só assim nos tornamos melhores. Se tivermos a mente e a alma “suja” com sentimentos menos bons, isso nos vai atrasar. Acho que estando bem comigo próprio é o essencial para estar bem com os outros, e por sua vez, com o mundo.”

Mas afinal, o que é ser homem?

É ser exatamente o mesmo que mulher. É ser pessoa.

FILIPE – Inquérito aberto “Recolha de testemunhos masculinos” realizado em novembro 2020

Ser homem é ser-se alguém que consegue fazer das outras pessoas, independentemente do género, melhores pessoas. É ser carismático e inspirar os outros a ser melhor. É ser alguém que, à semelhança da mulher, é imperfeito, tem medos e traumas. E reconhece isso em si, sem vergonhas ou pudores. Mas também é alguém que no meio das imperfeições, medos e traumas tenta sempre o seu melhor em tudo o que faz.

RICARDO – INQUÉRITO ABERTO “RECOLHA DE TESTEMUNHOS MASCULINOS” REALIZADO EM NOVEMBRO 2020

A mesma coisa que ser uma mulher mas com uma fisionomia diferente.

JOSÉ – INQUÉRITO ABERTO “RECOLHA DE TESTEMUNHOS MASCULINOS” REALIZADO EM NOVEMBRO 2020

É sobre a cura. Para ti. Para mim. Para nós. Para eles. Para os filhos. Para os homens que virão. Para todos! Não importa o quão impossível pareça. Apesar do que qualquer regime, religião ou crença diga ou pense, tu és sagrado.⁣ Tu és merecedor de ser mais e melhor. Todos nós somos.⁣

Fonte desconhecida

SENTIR. EXPRESSAR. OUVIR. AMAR. SAUDADE. SOBRE MIM. SOBRE O HOMEM QUE SENTE, CHORA E É FERIDO.
Este texto é dedicado aos Homens.
Quero dedicar aos homens , ainda que saiba que a maioria dos leitores não serão homens.
Não só, mas também por isto – quero dedicar aos homens que não usam a expressão da sua sensibilidade e as qualidades do coração.
Seja por trauma, por educação, padrões, contextos sociais ou outros factores que tenham vindo a silenciar a verdadeira VOZ.
Desde que me conheço, desde que tenho noção de “mim” (…) falar sobre o que sinto foi sempre uma constante. Talvez por ter sido criado, única e exclusivamente por uma mulher (a minha mãe), a EMOÇÃO, A LUA, sempre estiveram mais presentes do que a ACÇÃO – ( Não vou entrar por aqui, mas, para tu que lês… O SOL representa o lado masculino, a ACÇÃO; Por outro lado, A LUA representa o lado feminino, A EMOÇÃO. Todos nós temos estas duas polaridades. Repara que não é, nem nunca será, o facto de “esconderes emoções”, que não irás sentir).
(…)Este texto surge agora, numa altura em que TU, HOMEM, não podes agir. Não podes abraçar a tua mãe, avó, familiares, amigos. SENTES, NÃO SENTES? Falta. Medo. Insegurança. Raiva, talvez. Desamparado. Repara que, independentemente de todas as acções tomadas ou lágrimas escondidas, estás numa altura em que o SENTIR é aquilo que te toma por completo.
Aproveita para te conectares com a LUA (lado feminino). Está em ti. Em todos os Seres. Rasga os condicionamentos, larga o “ser macho que esconde o que sente para não sofrer ou para não mostrar que tem medo”. Já paraste para pensar na falta que faz, falar do que sentes? Expressar sem medo. Deixa vibrar o que vai aí dentro e grita. Diz o que sentes, liberta.
Eu sei que cada vez somos mais.
Eu estou aqui para Ti. Para te abraçar. Para te ouvir. Não estamos sozinhos.
Este é para ti, Homem (…) para observares a Mulher em Ti.
Honra o teu Sagrado. Feminino. Masculino. Humano.

João – The Ocean buddha – instagram

Numa publicação da página do Sacred Sons li que o vício atinge severamente muitos homens, afetando intensamente os seus relacionamentos, as suas famílias, o seu trabalho e o seu mundo interior.⁣ O ambiente stressante de eventos globais está a aumentar estas lutas na vida dos homens. Dor emocional intensa e contundente, bem como trauma, estão, muitas vezes, na raiz do uso da dependência. Torna-se um ciclo vicioso negativo, e dor acumula-se sobre dor.⁣
Trabalhar com os nossos vícios significa trabalhar com a nossa dor. Significa também encontrar lugares de conexão autêntica e relacionamentos nutritivos. Reconhecer o vício significará reconhecer a nossa dor. Significará também reconhecer como o vício pode espalhar a dor pelos nossos relacionamentos. O reconhecimento é o primeiro passo, e há muitos mais depois…

Amar-nos a nós mesmas/os, às nossas irmãs e irmãos, e amar o nosso planeta, é o único caminho de regresso. É a única forma de resgatarmos a essência da vida e da nossa raça. 

Inês Gaya – livro Sagrado Feminino

Seja discriminação pelo género, pela sexualidade, pela cor da pele ou pela cultura, todos temos um papel a cumprir para quebrar a corrente, e fazer de todos os seres, seres merecedores, válidos e amados.

Amor gera amor.

Sacred Sons Instagram

Obrigada por leres e te colocares na pele do outro!

Até breve

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